Por Emmanuel Cavalcanti,
Especialista em marketing eleitoral
Flávio Gadelha Filho deu o pontapé inicial na narrativa que conecta Copa do Mundo e eleições em Pernambuco. Pré-candidato a deputado estadual pelo litoral norte, ele é o primeiro da região a incorporar o mote do futebol em sua comunicação de pré-campanha, e acertou em cheio no timing, na estética e na emoção. Porque, como venho repetindo desde os tempos em que alternava charges entre as editorias de esportes e política na Folha de Pernambuco e no Jornal do Commercio, campanha é feijoada. Copa também. Temperadas com esperança coletiva.
Futebol e política falam a mesma língua simbólica. Ambos operam com narrativa, pertencimento e, sobretudo, esperança coletiva. A Copa do Mundo é, talvez, o maior momento de nacionalização emocional que o Brasil experimenta. E a política, há décadas, aprende a aproveitar esse sentimento. Isso é antigo. Em 1970, Médici usou “ninguém segura este país” como slogan, pegando carona em uma música cantada durante a Copa. Em 1994, o clima de tetra confluiu com o sucesso do Plano Real às vésperas da eleição de FHC, o dólar chegou a valer menos que o real. O sentimento era de vitória dentro e fora de campo. Já em 2014, o 7 a 1 virou símbolo do desgaste institucional que marcaria o segundo mandato de Dilma Rousseff. Antes de 2014, tudo era história ou memória; a partir dali, passou a ser experiência direta.
O que mudou de lá para cá foi o timing da apropriação. Antes, as campanhas oficiais surfavam a onda. Hoje, as pré-campanhas fazem isso com sofisticação estética e narrativa. A Copa se consolida como ponto de contato antecipado entre políticos e eleitores. A linguagem de convocação, álbum de figurinhas, camisa da seleção, bandeiras, cores nacionais e trends passam a ser incorporadas muito antes do período eleitoral. Desde 2014, observo também um fenômeno particular: a apropriação mais intensa da camisa da seleção por grupos e lideranças à direita. O verde-amarelo, patrimônio identitário nacional, ganha vieses ideológicos no debate público.
Em ano de Copa, todo brasileiro vira técnico. Em ano eleitoral, todo brasileiro vira analista político. Nos dois casos, o envolvimento é passional, coletivo e carrega aquela esperança coletiva. Costumo dizer que campanha é igual a feijoada: não se prepara no dia de servir. No dia, ela já precisa estar pronta e apurada. Na Copa, é a mesma lógica. A seleção não se forma no primeiro jogo; ela chega testada, entrosada, treinada.
O movimento que Flávio Gadelha Filho iniciou no litoral norte pernambucano é um exemplo prático disso. A política, cada vez mais cedo, pega carona na Copa porque precisa de uma narrativa vitoriosa emprestada e de um ponto focal no subconsciente coletivo de esperança. O futebol serve perfeitamente como vetor para isso. O fato é que, a cada quatro anos, a Copa oferece à política um estoque de esperança coletiva para cada cidadão. Alguns sabem usar isso melhor que outros.
Torço para que tenhamos uma ótima eleição e que a nossa seleção jogue bola de verdade e traga a taça para casa novamente, depois de tanto tempo. E, por aqui, que iniciativas como a de Flávio Gadelha Filho inspirem uma comunicação política mais conectada com o que o povo realmente sente.
Emmanuel Cavalcanti é especialista em marketing política e digital.

