‘Maria, Maria’: a força da mulher brasileira na canção de Milton Nascimento e Fernando Brant. Clássico da MPB, composto para o Grupo Corpo e imortalizado na voz de Elis Regina, completa mais de quatro décadas como um hino de resistência e fé das mulheres brasileiras.
Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, celebrado neste 8 de março, o Blog do Kennedy Lima de hoje traz a história por trás de uma das canções mais emblemáticas da Música Popular Brasileira (MPB). Mais do que uma melodia, “Maria, Maria”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, é um retrato lírico e profundo da força, da luta e da resiliência da mulher brasileira.
A canção “Maria, Maria” surgiu em 1976 não primeiramente como uma música, mas como parte de um projeto maior. O Grupo Corpo convidou a dupla para criar a trilha sonora de seu primeiro espetáculo, também intitulado “Maria, Maria”, com coreografia de Oscar Araiz e roteiro de Fernando Brant.
Inicialmente, a melodia de Milton era cantada apenas com o vocalize “lá lá lá”. Foi o olhar sensível de Fernando Brant que transformou a performance em poesia. Inspirado na força da mulher negra e batalhadora, ele deu letra à música, eternizando a figura de Maria, uma mulher que vivia à beira dos trilhos do trem com seus três filhos. O espetáculo foi um sucesso estrondoso, ficando em cartaz por dez anos e passando por 14 países.
O fato curioso, Fernando Brant escreveu a letra da música no intervalo do jogo do Brasil na Copa do Mundo de 1978, ano que a canção seria gravada pelo Clube da Esquina, a canção ganhou projeção nacional e se tornou um clássico atemporal na voz de Elis Regina, que a registrou em 1980 no disco “Saudades do Brasil”.
A letra de “Maria, Maria” é uma ode à mulher que, diante das adversidades, encontra força para seguir. Mais do que isso, é um lembrete de que, como qualquer outra pessoa, Maria merece viver e ser amada.
“Maria, Maria / É um dom, uma certa magia / Uma força que nos alerta / Uma mulher que merece viver e amar / Como outra qualquer do planeta”
Nestes primeiros versos, a canção destaca a grandeza e a humanidade de Maria, ressaltando a importância de combater a invisibilidade e a solidão, especialmente da mulher negra, em uma sociedade historicamente desigual.
Os compositores pintam um retrato sensorial da personagem. Maria é feita de cultura, de luta e de uma força quase sobre-humana que a faz sorrir mesmo na dor. A dureza da realidade, porém, é exposta no verso final: uma crítica social que aponta para a falta de dignidade básica, onde não há espaço para “viver”, apenas para “aguentar”.
A canção segue afirmando a necessidade de coragem, uma característica inata a quem carrega as marcas da luta diária. É um retrato da mulher que vive na constante dualidade entre a desilusão e a felicidade.
E é no sonho que Maria encontra o motor para sua existência. A fé inabalável, quase inexplicável, na vida é o que a move. É essa “estranha mania” que a permite persistir, lutar por seus filhos e acreditar em um futuro melhor.
“Maria, Maria” é, portanto, muito mais que uma música. É um espelho da história de inúmeras mulheres brasileiras que, todos os dias, transformam a luta em arte e a dor em esperança.

