A reeleição de Lula para o quarto mandato em 2027 não começará com festa no Congresso. O Senado que o presidente encontrará em fevereiro será o mais hostil desde a redemocratização: o PL terá a maior bancada, com 29 senadores, seguido por uma federação de centro-direita e só então pelo PT, com 10 senadores. A direita, somada, chega a 50 senadores, perto dos 54 necessários para aprovar uma PEC. É nesse cenário de desvantagem estrutural que dois nomes de Pernambuco se tornam peças centrais da engrenagem de governabilidade: Teresa Leitão e Humberto Costa.
Teresa Leitão: a líder de governo num Senado de oposição
Teresa Leitão não é apenas mais uma senadora petista. Ela foi escolhida por Lula para a liderança do governo no Senado em junho de 2026, tornando-se a primeira mulher a ocupar o cargo. A função é a mais estratégica do Planalto na Casa: cabe a ela acelerar as pautas prioritárias do Executivo e, sobretudo, “evitar o avanço de propostas que possam gerar impactos ao governo”, as chamadas pautas-bomba.
O perfil de Teresa explica a escolha. Ela não esteve em campanha por reeleição, seu mandato vai até 2030, e é bem quista entre senadores de oposição, o que a credencia para a negociação em um ambiente onde o governo não tem maioria. A missão é ingrata, mas decisiva: sem uma líder capaz de transitar entre os pares e segurar a pauta, o governo fica à mercê da agenda do PL e do centrão.
As prioridades que Lula lhe entregou são a prova da centralidade do cargo: a PEC do fim da escala 6×1, a PEC da segurança pública e o projeto dos minerais críticos e terras raras. São pautas com apelo popular e potencial de gerar conflito com a maioria conservadora. Teresa terá de “desatar os nós políticos” para que ao menos elas cheguem ao plenário, e já venceu com o fim da escala 6×1.
Humberto Costa: o articulador de longo curso
Se Teresa é a líder formal, Humberto Costa é o articulador de peso político acumulado. Reeleito para o terceiro mandato consecutivo em 2026, feito inédito na política pernambucana, ele chega a 2027 como vice-presidente nacional do PT e uma das vozes mais experientes da bancada no Senado. Sua trajetória inclui a Vice-Presidência da Casa e a relatoria de matérias estruturantes, como a que reestrutura o Tribunal Regional Federal da 5ª Região.
Humberto foi, ele próprio, um dos arquitetos da estratégia eleitoral que Lula abraçou em Pernambuco. Antes da eleição, ele defendeu abertamente a formação de uma “bancada lulista” no Senado para “enfrentar o avanço da extrema direita e ampliar a base de apoio ao presidente”. Lula, por sua vez, tratou a reeleição de Humberto como prioridade política no estado, ciente de que o Senado é a Casa que julga impeachment e que, com uma bancada mais à direita, “a chance de tentarem um impeachment é grande”.
Em 2027, Humberto não será o líder de governo, mas será o negociador de bastidores: o senador com trânsito no PT, no centrão e entre os próprios pernambucanos, capaz de costurar apoios para que as pautas de Teresa não morram na gaveta.
Por que Pernambuco importa tanto
A relevância dos dois não é acidental. Pernambuco é um dos estados onde Lula mantém capital político elevado, e a eleição para o Senado foi tratada pelo entorno do presidente como “a única que importa” no estado. A lógica é simples: governadores, mesmo de oposição, acabam negociando com o Planalto; senadores, não. Um senador sem compromisso com o governo “vira adversário rapidinho e complica muito a vida do governo”.
Com Humberto reeleito e Teresa na liderança, Lula garante duas cadeiras alinhadas em um estado cuja bancada pode fazer diferença em votações apertadas. Mais do que isso: garante uma retaguarda política e simbólica no Nordeste, região que segue sendo o principal celeiro de votos e de quadros do petismo no Congresso.
O desafio da governabilidade
A equação de 2027 é conhecida: o PL terá 29 senadores e 121 deputados; a base governista no Senado encolhe de 38 para 26 cadeiras, das quais apenas 10 são petistas. Lula precisará do centrão, e do MDB rachado, para formar maiorias. Nesse xadrez, Teresa e Humberto não são coadjuvantes: são os dois pontos de apoio mais confiáveis do governo na Casa Alta.
Teresa segura a pauta e enfrenta a oposição no plenário; Humberto articula nos corredores e mantém a bancada coesa. Sem eles, a governabilidade de Lula no quarto mandato fica refém de um Senado dominado pelo PL. Com eles, o governo tem ao menos duas âncoras pernambucanas para tentar emplacar o que importa e, sobretudo, para impedir que a agenda da oposição avance sobre o Planalto

